Pressão alta: o que é, como tratar e o que mudou nas recomendações médicas mais recentes
A pressão alta, ou hipertensão, como os médicos chamam, é uma daquelas doenças que quase todo mundo conhece alguém que tem. É extremamente comum no Brasil e, ao mesmo tempo, muito perigosa, porque na maioria das vezes não dá sintoma nenhum. A pessoa se sente bem, mas por dentro a pressão elevada vai desgastando o coração, o cérebro, os rins e os vasos sanguíneos aos poucos, durante anos.
É por isso que a pressão alta é chamada de "assassina silenciosa", ela vai fazendo estrago sem a pessoa perceber, e quando aparece algum problema, muitas vezes já é algo sério, como um infarto ou um derrame.
A boa notícia é que, quando descoberta e tratada direito, a pressão alta pode ser controlada. E recentemente, em 2025, as principais sociedades médicas do Brasil atualizaram as recomendações sobre como diagnosticar e tratar essa doença. Algumas coisas mudaram, e vale a pena entender o que significa isso para quem já é hipertenso ou para quem quer se prevenir.
Mas afinal, o que é pressão alta?
Vamos simplificar. O coração funciona como uma bomba: ele se aperta para empurrar o sangue pelas artérias e depois relaxa para se encher de sangue de novo. Quando a gente mede a pressão, estamos medindo a força com que o sangue passa por dentro das artérias.
Essa medida aparece com dois números. Por exemplo: 12 por 8 (que os médicos escrevem como 120 x 80 mmHg). O primeiro número é a pressão na hora que o coração aperta e empurra o sangue. O segundo é a pressão quando o coração está relaxado, descansando entre um batimento e outro.
Quando esses números ficam altos de forma repetida, a gente diz que a pessoa tem pressão alta. Não é por uma medida só que se faz o diagnóstico, é preciso que a pressão esteja elevada em várias medições, em dias diferentes.
Quem trata a pressão alta?

Meu nome é Thiago Felipe dos Santos, sou médico cardiologista.
Me formei em medicina pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) é 2009 e depois me especializei em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Também tenho especialização em ecocardiografia e imagem cardiovascular pelo Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC, que é a área voltada para os exames de imagem do coração.
Há 10 anos atendo em Cornélio Procópio, no norte do Paraná, onde sou diretor técnico da Clínica Cordis, uma clínica especializada em cardiologia e psiquiatria. No meu dia a dia, cuido de pessoas com pressão alta, colesterol elevado, arritmias, insuficiência cardíaca, doenças nas artérias do coração e de pacientes que precisam de acompanhamento após infarto ou cirurgias cardíacas. Também faço muita avaliação preventiva, ajudando meus pacientes a cuidarem do coração antes que qualquer problema apareça.
Escrevo esses textos porque acredito que informação de qualidade ajuda as pessoas a se cuidarem melhor. Se algo do que você leu aqui fez sentido para a sua situação, procure um cardiologista de confiança para uma avaliação.
O que a medicina considera "normal" e "alto" hoje?
Esse é um dos pontos que mudou nas recomendações de 2025, e vale prestar atenção.
Antes, muita gente aprendeu que "12 por 8 é perfeito". Hoje, os médicos consideram que 12 por 8 já está no limite. Não é doença, mas também não é aquele valor tranquilo que se pensava. Quem vive nessa faixa precisa cuidar da alimentação, do peso e do exercício com mais seriedade, porque o risco de desenvolver pressão alta no futuro é real.
Para ficar mais claro: pressão abaixo de 12 por 8 é considerada normal. De 12 por 8 até perto de 14 por 9, o corpo já está dando um sinal de alerta, os médicos chamam isso de pré-hipertensão. E a partir de 14 por 9, dependendo de quanto passa e de quantas vezes isso se repete, já se considera pressão alta de fato, em diferentes graus.
Isso não significa que todo mundo com 12 por 8 virou "doente" de uma hora para outra. Significa que a medicina está prestando mais atenção nesses valores que antes eram ignorados, porque os estudos mostraram que, no longo prazo, eles também aumentam o risco de problemas no coração.
Por que a pressão sobe?
Na maioria dos casos, não existe uma causa única. É uma mistura de coisas.
A genética pesa bastante. Se seu pai ou sua mãe tinham pressão alta, sua chance de ter também é maior. A idade também conta e quanto mais velho, mais comum é ter pressão elevada, porque os vasos vão perdendo a elasticidade com o tempo.
Mas o estilo de vida faz uma diferença enorme. Comer muito sal, pouca fruta e verdura, viver parado, estar acima do peso, fumar, beber demais, dormir mal e viver estressado, tudo isso empurra a pressão para cima. E o pior é que esses fatores costumam vir juntos: a pessoa come mal, não se exercita, engorda, e aí a pressão sobe.
Algumas doenças também podem causar pressão alta, como problemas nos rins, alterações hormonais e a apneia do sono (aquele problema em que a pessoa para de respirar várias vezes durante a noite). Nesses casos, tratar a doença que está por trás pode ajudar a controlar a pressão.
A pressão alta dá algum sintoma?
Na maioria das vezes, não. Esse é o grande perigo. A pessoa pode passar anos com a pressão alta e não sentir absolutamente nada. Enquanto isso, o coração está se esforçando mais do que deveria e os vasos estão sofrendo.
Quando surgem sintomas, os mais comuns são dor de cabeça, tontura, zumbido no ouvido, cansaço sem motivo aparente e visão embaçada. Mas atenção: esses sintomas podem ter várias outras causas. Não dá para dizer "estou com dor de cabeça, deve ser pressão alta" sem medir.
Agora, existem situações que são urgentes e pedem socorro imediato. Se a pessoa sentir uma dor forte e de repente no peito, falta de ar intensa, fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, boca torta, ou uma dor de cabeça muito forte que aparece do nada (diferente das dores de cabeça comuns), é hora de correr para o pronto-socorro. Esses podem ser sinais de infarto ou derrame, e cada minuto conta.
Como o médico descobre se a pessoa tem pressão alta?
O primeiro passo é medir a pressão direito. Parece bobagem, mas tem muito detalhe que faz diferença. A pessoa precisa estar sentada, descansada por pelo menos 5 minutos, com as costas apoiadas, os pés no chão e sem conversar durante a medição. O braço tem que estar na altura do coração e o aparelho precisa ser do tamanho certo para o braço da pessoa. Tudo isso interfere no resultado.
Não se faz diagnóstico com uma medida só. O médico vai pedir para medir em mais de uma consulta, para ter certeza de que a pressão está realmente alta de forma persistente.
Uma coisa que ganhou muito destaque nas recomendações de 2025 é medir a pressão fora do consultório. Isso porque tem gente que fica nervosa no médico e a pressão sobe ali, mas em casa é normal e os médicos chamam isso de "efeito do jaleco branco". E tem o contrário também: gente que no consultório está bem, mas em casa a pressão vive alta. Por isso, o médico pode pedir para usar um aparelhinho que mede a pressão ao longo de 24 horas (o MAPA), ou orientar a pessoa a medir em casa seguindo um esquema certinho (o que chamam de MRPA).
Além de medir a pressão, o médico vai querer saber como está o resto: colesterol, açúcar no sangue, rins, coração. Ele pode pedir exames de sangue, eletrocardiograma, ultrassom do coração, entre outros, dependendo do caso. Isso ajuda a entender não só se a pressão está alta, mas também o quanto de risco aquela pessoa tem de ter um infarto ou derrame.
O que mudou nas recomendações médicas de 2025?
Sem entrar em linguagem de médico, as principais mudanças são:
A faixa de "normal" ficou mais apertada. Aquele 12 por 8 que todo mundo achava perfeito agora já é considerado "no limite". Não é doença, mas é um alerta para começar a se cuidar mais.
A meta do tratamento ficou mais rigorosa. Antes, para muitos pacientes, o médico ficava satisfeito se a pressão baixasse para menos de 14 por 9. Agora, a recomendação é tentar chegar abaixo de 13 por 8 para a maioria das pessoas, desde que o paciente tolere bem essa redução e não tenha efeitos colaterais como tontura ou queda.
O remédio entra mais cedo. Antes, em alguns casos de pressão "levemente alta", o médico podia tentar só com dieta e exercício por um tempo. Agora, a orientação é que, uma vez confirmada a pressão alta (14 por 9 ou mais), o remédio já entra junto com as mudanças no estilo de vida, independente de a pessoa ser considerada de "baixo risco" ou "alto risco".
Dois remédios desde o começo, na maioria dos casos. Outra mudança importante: em vez de começar com um remédio só e ir aumentando, a recomendação agora é começar logo com dois medicamentos combinados para a maioria dos pacientes. A ideia é que, usando dois remédios em doses menores, a pressão baixa mais rápido e com menos efeito colateral do que usando um remédio só em dose alta. Começar com um remédio só ficou reservado para situações específicas, como idosos muito frágeis ou quem tem a pressão só um pouco acima do limite.
Mais valor para a medida de pressão em casa. Como a gente já comentou, as recomendações de 2025 reforçam bastante o uso do MAPA e da medida em casa para confirmar o diagnóstico e acompanhar o tratamento. Se a pressão medida fora do consultório ficar em 13 por 8 ou mais de forma repetida, já é motivo de atenção.
Como é o tratamento?
O tratamento da pressão alta se apoia em duas coisas: mudar o estilo de vida e, quando necessário, tomar remédio. Vamos falar de cada um.
Mudanças no dia a dia
Essa é a base de tudo, tanto para quem já é hipertenso quanto para quem está naquela faixa de "quase lá".
O sal é um dos maiores vilões da pressão alta. E aqui não estou falando só do sal que a gente coloca na comida mas também o sal escondido nos alimentos prontos, embutidos (presunto, salsicha, bacon), temperos de pacotinho, macarrão instantâneo e salgadinhos é muito maior do que as pessoas imaginam. Reduzir isso já faz diferença na pressão.
Comer mais frutas, verduras, legumes, castanhas e peixes também ajuda. Não precisa virar uma dieta radical da noite para o dia. O importante é ir melhorando aos poucos e manter a mudança.
Exercício físico é remédio para pressão alta. Caminhada, bicicleta, natação, dança, o que funcionar para você. A recomendação é pelo menos uns 150 minutos por semana de atividade moderada, que dá mais ou menos 30 minutos por dia, cinco dias na semana. Se não consegue tudo isso, qualquer movimento já é melhor que nenhum.
Perder peso faz a pressão baixar. Não precisa ficar magro mas perder poucos quilos já ajuda, principalmente se a pessoa tem muita barriga.
Parar de fumar é fundamental. O cigarro é um dos piores inimigos do coração e dos vasos. E cigarro eletrônico e narguilé não são alternativas seguras.
Beber menos álcool, dormir melhor e encontrar formas de lidar com o estresse também entram na conta.
Todas essas mudanças, quando feitas de verdade, conseguem baixar a pressão vários pontos. Em alguns casos, o suficiente para evitar ou adiar o uso de remédio.
Remédios
Quando as mudanças no estilo de vida não são suficientes ou quando a pressão já está claramente alta, o médico vai receitar medicamento. Existem vários tipos, e o cardiologista escolhe com base no perfil de cada pessoa. Os mais usados são remédios que relaxam os vasos sanguíneos e outros que ajudam o corpo a eliminar mais líquido pela urina, diminuindo o volume de sangue e, com isso, a pressão.
O mais importante para quem toma remédio de pressão é não parar por conta própria. Esse é um dos erros mais comuns e mais perigosos. A pessoa mede a pressão, vê que está normal, e pensa: "pronto, estou curado, posso parar". Mas a pressão só está normal porque o remédio está fazendo efeito. Se parar, ela volta a subir.
Outro cuidado: evite tomar anti-inflamatórios e remédios para dor sem orientação médica. Muitos desses medicamentos podem subir a pressão ou prejudicar os rins, especialmente em quem já é hipertenso.
Se sentir algum efeito colateral como tontura, inchaço, tosse que não passa, cansaço, fale com o médico. Não troque nem pare o remédio sozinho. Existe sempre alternativa, e o médico pode ajustar.
Quando marcar consulta e quando ir ao pronto-socorro?
Marque uma consulta com calma quando:
Você tem medido a pressão em casa e ela costuma ficar em 13 por 8 ou mais. Ou já sabe que é hipertenso mas faz tempo que não vai ao médico. Ou tem diabetes, colesterol alto, excesso de peso ou histórico de doença no coração na família. Ou está naquela faixa de pré-hipertensão e quer saber o que fazer para não piorar.
Vá direto ao pronto-socorro se:
A pressão estiver muito alta (acima de 18 por 11, por exemplo) junto com sintomas como dor no peito, falta de ar, confusão mental, dor de cabeça muito forte ou alteração na visão. Ou se tiver sinais de derrame como fraqueza de um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar, perda de visão de repente. Ou dor forte no peito que não passa em poucos minutos.
Pressão alta sozinha, sem sintoma, geralmente não é emergência para sair correndo ao hospital, mas precisa ser acompanhada. Já pressão alta com sintomas é outra história, e aí não dá para esperar.
Mitos comuns sobre pressão alta
"Minha pressão só sobe quando fico nervoso, então não tenho pressão alta."
Nem sempre é assim. O nervosismo pode subir a pressão, sim, mas se ela está alta também em momentos de calma, em casa, repetidas vezes, pode ser hipertensão de verdade. A medição fora do consultório ajuda a esclarecer isso.
"Estou me sentindo bem, então posso parar o remédio."
Esse é o mito mais perigoso. A pressão alta quase nunca dá sintoma. Se você está se sentindo bem, provavelmente é porque o remédio está funcionando. Parar por conta própria pode colocar seu coração em risco.
"Remédio de pressão vicia."
Não vicia. A hipertensão é uma doença que na maioria dos casos acompanha a pessoa pela vida toda. O remédio controla a doença e não cria dependência. Se a pessoa para a pressão sobe de novo porque a doença continua ali.
"Pressão alta é coisa de velho."
Cada vez menos. Tem muita gente na faixa dos 30, 40 anos com pressão alta, principalmente quem está acima do peso, come muito sal, não se exercita ou tem histórico na família.
"Se 12 por 8 agora é 'no limite', então todo mundo vai ser hipertenso."
Não é bem assim. A mudança na classificação não transformou todo mundo em doente. O que aconteceu é que a medicina percebeu que valores que antes eram ignorados já trazem algum risco no longo prazo. A ideia não é assustar, mas incentivar as pessoas a se cuidarem mais cedo, principalmente com alimentação, exercício e controle de peso.
Perguntas frequentes
12 por 8 é normal ou é pressão alta?
Hoje, 12 por 8 é considerado "no limite", o que os médicos chamam de pré-hipertensão. Não é doença e não significa que você precisa tomar remédio. Mas é um sinal de que vale a pena cuidar da alimentação, do peso e do exercício, e acompanhar a pressão com mais frequência.
A partir de quanto é pressão alta de verdade?
A partir de 14 por 9, quando essa medida se repete em várias consultas ou na medição em casa. Uma medida isolada não fecha diagnóstico.
Qual a meta de pressão para quem já toma remédio?
A recomendação atual é tentar manter abaixo de 13 por 8 para a maioria dos pacientes. Mas isso precisa ser individualizado: em idosos frágeis, por exemplo, o médico pode aceitar uma meta um pouco mais alta para evitar tontura e queda.
Quem está na faixa de pré-hipertensão precisa tomar remédio?
Na maioria dos casos, não. Geralmente, as mudanças no estilo de vida são suficientes nessa fase. Mas se a pessoa tem diabetes, problemas nos rins, doença no coração ou se a pressão não melhora com as mudanças, o médico pode considerar entrar com medicamento.
Medir a pressão em casa funciona?
Sim, e é até recomendado pelos médicos. O importante é usar um aparelho confiável (de braço, não de pulso) e seguir o jeito certo de medir: sentado, descansado, sem conversar, braço apoiado. Leve as anotações na consulta — isso ajuda muito o médico a acompanhar como está o controle.
Agende sua avaliação cardiológica
Se você se identificou com os sintomas, fatores de risco ou dúvidas descritas neste artigo, converse com a equipe da Cordis para uma avaliação individualizada.
Agendar consultaEste texto é informativo e não substitui a consulta com um médico. Cada pessoa tem uma história e necessidades diferentes. Se você tem medido pressão alta em casa, se já é hipertenso e está sem acompanhamento, ou se tem dúvidas sobre sua saúde, procure um cardiologista de confiança.
Em situações de urgência como dor no peito, falta de ar intensa, sinais de derrame, não use este texto como orientação. Procure atendimento médico imediato.
Dr. Thiago Felipe dos Santos CRM-PR 26846 Cardiologia RQE 18484 Ecocardiografia RQE 19548
